O relato do padre italiano Giovanni Gallo, que chegou ao Marajó em 1973, é sempre um momento de reflexão para mim. Ao reler suas palavras, sou tomado por uma sensação de identificação, mas também por um paradoxo curioso. Gallo descreve sua chegada a Jenipapo, uma vila de palafitas perdida no interior do Marajó, como um choque: “me encontrava no fim do mundo, sem água, sem luz, sem telefone, com uma comida precária, com a previsão de um trabalho difícil”. Para ele, a simplicidade da vida ali era, de fato, algo impactante e desafiador.
No entanto, para mim, enquanto garoto morador de uma pequena fazenda às margens do Rio Anajás, o que Gallo descreve como "fim do mundo" era, na verdade, uma grande aventura. Qualquer outra forma de moradia, qualquer vila que não fosse a nossa pequena fazenda, já parecia extraordinária. Eu me deslumbrava, achando que aquelas vilas eram enormes, comparadas ao meu mundo limitado e rural. O que para Gallo era simplicidade, para mim era grandeza.
O paradoxo é claro: o olhar do visitante é de estranhamento e impacto; o olhar de quem já vive ali é de encantamento com algo que parece ser uma imensidão, mas que para o visitante é apenas um ponto remoto e simples.
Essa diferença de perspectiva me faz refletir sobre como as realidades mudam conforme os olhos de quem as vê. Para Gallo, a missão de viver em Jenipapo trouxe desafios, mas também a certeza de que seria uma experiência rica, como ele mesmo afirma: “Confortava-me o fato de ter escolhido uma missão que, apesar de difícil, sem dúvida, guardaria para mim muitas satisfações como padre e como homem.”
O padre Giovanni Gallo, que faleceu em 7 de março de 2003, deixou um legado significativo no Marajó. Sua dedicação à missão religiosa e seu trabalho como museólogo, arqueólogo e fotógrafo fizeram com que ele se tornasse uma referência na preservação e no estudo da cultura marajoara. Em 1972, um ano antes de chegar a Jenipapo, ele fundou o Museu do Marajó em Cachoeira do Arari, reunindo pesquisas e materiais que valorizavam a história e a diversidade da região.
E é essa sensação que me toca sempre ao relembrar aquele trecho. À medida que o tempo passa, a pequena vila de Jenipapo, que parecia grande em minha infância, continua a ser um símbolo de simplicidade e profundidade, tanto para Gallo quanto para mim, cada um com seu olhar, mas com a mesma admiração por aquele pedaço do mundo, no coração do Marajó.

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