A história de um adolescente de 16 anos em Soure, no arquipélago do Marajó, expõe uma série de injustiças e levanta questões sobre o papel das instituições em proteger os direitos das crianças e adolescentes. Um jovem, que deveria estar sob a proteção do sistema educacional e do Estado, enfrenta agora a humilhação e o preconceito que o levaram a ser tratado como um criminoso perigoso. Este caso revela as profundas falhas no tratamento de jovens negros em situações de vulnerabilidade, trazendo à tona a necessidade urgente de uma reflexão sobre racismo e justiça em nossa sociedade.
O adolescente em questão vinha sofrendo bullying de forma contínua em sua escola, sendo alvo de insultos racistas e humilhações públicas. Era chamado de "macaco beçudo" e acusado falsamente de ter HIV, uma situação que, ao invés de ser prontamente abordada e resolvida pelas autoridades escolares, foi ignorada. Sentindo-se encurralado e sem apoio, o jovem tomou uma atitude desesperada: levou uma faca para a escola, com a intenção de se defender e talvez intimidar seus agressores. Uma discussão ocorreu, mas nada de grave se sucedeu. No entanto, a situação foi tratada com extrema severidade.
Ambos os alunos envolvidos na confusão foram expulsos da instituição de ensino. O adolescente que portava a faca foi apreendido pela autoridade policial de Soure, sendo autuado por ato infracional análogo à tentativa de homicídio. Após a detenção, ele foi transferido para a delegacia de Salvaterra, onde permaneceu algemado, e posteriormente apresentado em audiência de custódia no fórum da comarca única de Soure. O juiz manteve a apreensão do jovem, decidindo por sua transferência para um centro de ressocialização em Belém, onde será tratado como um infrator.
O desespero da família é evidente nas palavras do pai do adolescente, que implora por justiça para seu filho. Em um depoimento angustiante, ele diz: "Bom dia, boa tarde, boa noite, não sei que horas esse vídeo vai chegar até você. Estou aqui, com o coração apertado, pedindo ajuda pelo meu filho. Ele sofria muito bullying no colégio. Eu não sei explicar o que foi que aconteceu, mas ele ficou revoltado, brigou com o colega dele. Eu sei que ele tá errado porque levou uma faca, mas ele não furou ninguém. Mesmo assim, foi tratado como um criminoso. Passou a noite toda na delegacia, foi transferido de novo, e agora está sendo levado para Belém. Meu filho nunca tinha sido preso, nunca brigou antes, e agora está nessa situação. Eu só quero entender por que isso está acontecendo."
A família, que sempre viu no garoto um jovem de bem, questiona se a cor de sua pele está pesando contra ele. A acusação de tentativa de homicídio, baseada em um processo de 58 páginas, parece desproporcional aos fatos, especialmente considerando o contexto de bullying e racismo que antecedeu o incidente. O pai expressa sua incompreensão e dor ao ver seu filho, que nunca havia tido problemas anteriores com a lei, ser tratado de maneira tão severa.
A revolta da família é dirigida também às instituições envolvidas: o Conselho Tutelar, que deveria proteger os direitos do adolescente, e a escola Estella Maris, que falhou em criar um ambiente seguro para o jovem. Esses órgãos, ao invés de atuarem em defesa do adolescente, contribuíram para que ele fosse visto como um "bandido perante a sociedade", uma imagem totalmente incompatível com a realidade do jovem.
Este caso é um triste reflexo de como a cor da pele pode influenciar o tratamento que uma pessoa recebe das instituições que deveriam protegê-la. O sistema educacional falhou em proteger o adolescente do bullying, e o sistema judiciário falhou em considerar as circunstâncias que levaram ao incidente. Ao invés de receber apoio e compreensão, o jovem foi tratado com uma severidade desproporcional, agravando ainda mais a injustiça que já vinha sofrendo. Este caso exige não apenas a revisão do processo judicial, mas também uma reflexão profunda sobre como o racismo institucionalizado continua a impactar a vida de jovens negros no Brasil.
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